Quando ele não liga. 05:24

O cara pede o número dela, ela espera. Até toma banho com o celular na saboneteira, e ele não liga. O cara não liga e o prazo é duas semanas. Uma de espera e a outra de desespero. Um misto de ansiedade e esperança faz a moça perder o sono e se culpar por tudo o que deve lá não ter que não agradou o carinha. A primeira semana até que é tranqüila, vale até falar com o espelho testando tom de voz e separar a roupa pro próximo encontro, claro que eles vão sair, como não? E o cara ainda nem ligou. E já estão lá o vestido, sapatos, o tom de voz e o melhor ângulo pra dessa vez não perder o da vez. Tudo bobagem. Sete dias, uma semana. E nada. Ela também não liga, e se tinha o número a essa altura do campeonato já apagou, pra não correr o risco de ligar pra ele. Pois muito bem. Segunda fase. O vestido volta pro armário junto com os sapatos e aquele ângulo que não ia falhar de certeza foi parar na gaveta junto com tantos outros. Coitada. Ele ainda não ligou, e já estamos no décimo dia. Como não? O que eu tenho, ou não tenho? O que falta? O que ele quer? Será que são meus olhos ou aquela celulite? Será meu cabelo? Minha boca, meu jeito? Ela se pergunta, querendo resposta. Em vão. Antes do prazo terminado já com a paciência por um fio e a esperança por meio desse fio. Ela começa a se desculpar por ele, a criar desculpas sem pé nem cabeça pra justificar o esquecimento ou mesmo por não querer encarar que não foi dessa vez. E imagina que ele não ligou por que a avó deve estar doente, por que pode ter ido visitar um parente, pode estar em uma floresta deserta, o celular pifou, ele perdeu o número, será que eu dei o número certo? E se ele estiver me procurando, ou estiver esperando eu ligar? Ah... E por tantos outros motivos que não convencem nem criança na troca de um pirulito. E vem agora a fase do deixar pra lá, e promete nunca mais esperar ligação de cara nenhum, promete não separar a roupa e se ele ligar a voz vai estar rouca mesmo, se aparecer o rosto vai estar inchado, e que não vai mais se programar pra uma expectativa em vão. Tudo mentira. E ela promete, jura, vai pra academia, por um momento esquece, esquece a celulite, esquece o carinha e esquece de esperar pela ligação dele. Esquece ali, naquele instante. Pois basta o próximo pedir o número pro prazo voltar e ela esperar. Esperar por esperar. Tudo de novo. Vai dizer que não?

O que não entra na cabeça de mulher. É que se o cara quer, ele liga. Se ele está afim de você, ele vai te procurar e não vai ser porque o celular por um descuido caiu na vala que ele vai desistir de você. Se ele não ligou. É simples. Não foi. Não era pra ser. O problema não é a sua celulite ou sua raiz do cabelo que está por fazer. O problema talvez não seja nem nele. Ou talvez até seja. Mas quer saber? Pouco importa. Homens problemáticos por aí tem aos montes, mas poucos que vão merecer você. Mulher é bicho desesperado, o cara esbarra na sua caipirinha e pronto, já pensa em casar, ter filhos e comprar uma casa na praia. Coitada. Não programe. Não se precipite. Não exagere. Não corra na direção contrária. Seja paciente e viva tudo no seu tempo certo. Sem forçar a barra, sem forçar nada. Sem dizer nada. Seja você, rouca, louca, boba, tola. As coisas são como são no tempo exato. Se ele gostar de você, vai ligar, vai procurar e vai exagerar assim como você. Vai esperar pelo próximo encontro, vai separar a roupa, ensaiar a voz rouca e vai gostar de você louca, boba, tola (...) !

Pra te chamar de meu. 07:25

Com você eu guardo segredos que não sei contar. Pra você eu conto segredos que não sei guardar. Uso palavras que não sei soletrar. Invento mistérios que não sei desvendar. Faço barulho pra não silenciar. Calo a boca pra não te incomodar. E grito pra te assustar. Não uso mentiras pra te impressionar. E digo verdades pra te fazer ficar. Não disfarço o medo. Não sei conter o riso. E me visto de um sentimento incontido, não proibido. Você sabe o jeito certo de fazer tudo bagunçar. Virar. Descontrolar e no tempo certo voltar pro lugar. Hoje eu te quis um pouco mais perto, arrastei tua cadeira até que ela encostasse na minha e me instalei no teu ombro. Por um instante. Naquele instante. Desmontamos. Quebramos. Viramos poeira. Eu e minhas teorias. Criei coragem e me desarmei pela metade, pois você cuidou de todo o resto. Me fez refém e eu me rendi. Entreguei os pontos. Joguei a toalha. Esqueci o jogo. E quis mais de você. Quis você inteiro. Quis te chamar de meu. Quis ser tua. E naquele instante, quis mais um bocado dessa coisa toda que é ter você só pra mim. Naquele instante esqueci tudo o que me ensinaram sobre impulso e sobre o mau caráter dos homens. Senti o coração esfriar, esquentar, acelerar, relaxar. Senti tudo. Senti paz. Senti você tão perto, mas tão perto... Que quis esquecer o instante por sentir medo. Foi então que eu voltei pra casa e me esqueci em você. Pensei no instante, pensei em você e em não te esquecer. Estalei os dedos e acordei pela metade, com uma saudade do seu formato em mim. Quis você de novo. Sem medo, sem culpa, sem espera, sem jogo. E é nessa contradição, é nesse misto de sentimento e medo que eu te encontro, e me perco, sem pressa nenhuma de achar o caminho de volta.

Não cabe mais. 20:38

Por um ângulo diferente, onde o torto distorce mais ainda, a vista de embaçada parece tão convicta do que vê que senti medo. O sutiã aumentou de número, a vida tomando enfim um rumo e um jeito de menina que não me cabe mais. E esse medo de ser mulher me tirou o sono, é ameaçador, de um jeito que impõe, sem mais motivos, sem regras...
Salto alto e batom vermelho faziam parte do time de lá, e eu cá, com meus contos fantasiados em cima da minha Vida real. Entre romances melosos e o mau caráter dos homens, eu me equilibrei no scarpin vermelho e segurei no corrimão da escada pra não correr o risco de tropeçar, pra não arriscar, por medo, por medo de não agüentar, de não suportar e principalmente não acreditar. Não acreditei em mim mulher, e me abracei em forma de menina, de um jeito tolo como criança tola, bati o pé, quis proteção, segurança, certeza. Chorei comigo, pedi abrigo. Não quero nuvens de aço, cadê meu algodão? Os romances e a certeza do final feliz... Cadê?
Sabe aquele vestido rodado? Não cabe mais. Sabe a barra da saia da mãe? Não cabe mais. Sonhos se transformaram em planos por não caber mais. Não cabem mais os sapatos. O meu medo. E deixar pra depois, não me cabe mais.
E eu quis correr escada abaixo, a vontade era de fugir, largar, não encarar, abrir mão. Mas segurei firme, apertei os dedos gelados contra a bolsa e enfrentei o bicho, o próprio espelho. Me encarei. Eu e todo o meu medo. Contra mim e toda minha coragem. Pés firmes. Eu aceitei a condição. E descobri que ser mulher é muito mais do que supunha. É coragem. E não só aumentar o número do sutiã. É aumentar o número do grau de responsabilidade. Ser mulher é mais que salto agulha em sábado à noite. É o equilíbrio constante em situações diárias. Ser mulher é deixar de ser menina, sem deixar de acreditar em criança. É ter medo com coragem. É dar um tiro no escuro. É um risco arriscado muito bem recompensado. É entrega. Conquista. Sou eu contra mim mesma. Eu dependendo de mim. Sem mais. Ser mulher é como escrever um livro, onde todo aquele medo faz valer à pena cada capítulo.

Pra me tirar do sério. 18:05

Você sempre aparece nos meus sonhos mais malucos. E talvez não seja a toa que nossa realidade seja tão absurda. Somos absurdos. E pra me enlouquecer você me liga no meio da noite. Não, o meu celular não toca. Mas você aperta o play, esqueço onde é o pause e penso em você a madrugada inteira. No sono e na ausência dele você se faz sonho e pesadelo em mim. Você me procura em tudo, e eu te encontro aqui. Você é louco. E pra me tirar do sério você me sorri daquele jeito que eu gosto, e chega tão perto que é impossível te mandar pra bem longe depois de sentir teu perfume me invadir de tal forma que talvez até mandasse você pro espaço, mas com a condição de me levar junto. Gosto de você de vez em quando, e isso é um absurdo. Como gostar de você ás vezes? Você não me cansa. E eu gosto dessa insegurança segura. Dessa instabilidade estável e desse teu jeito maleável de conseguir o que quer. Gosto quando você me olha nos olhos, mas odeio o jeito que você fala comigo. Você é fraco e essa tua fraqueza te deixa forte. Tão forte a ponto de me carregar no colo e me envolver nos braços. Você não sabe amar. Não quer amar. Não sabe me amar. Não sabe de nada do que quero, do que preciso. Eu também não sei amar. Não quero ser amada por você. Eu nem gosto de você. Odeio tanta coisa em você. É tão estranho, desconhecido. Mas não erro o passo, com você eu não tropeço. Você é todo errado, que de tão errado por um descuido, você acerta. Pra me tirar do sério você existe, e faz o que não gosto, do jeito que eu não gosto e me faz de odiar tanto a ponto de não entender como eu odeio todo esse teu jeito e quero tanto te ter sempre por perto. É, eu até que gosto de você. Pouco. Menos que pouco. É quase nada. Uma faísca de sentimento. É uma coisinha que chega a incomodar. Mas gosto. E falo sério.

Querer insano. 14:48

Quis correr, quis ficar. Quis morder, quis amar. Quis sofrer, quis tentar. Tentar não sofrer com medo de amar. Quis te ver, quis ligar. Quis não ter coragem pra falar. Quis sonhar e acordar. Quis morrer pra não te procurar. Quis você, quis ninar. Quis você e te abraçar. Quis esquecer, não quis lembrar. Quis não pensar e esquecer. Quis não sentir. Quis não querer você. Quis não ter saudade. Quis não ter vontade. Quis não querer. Mesmo querendo. Quis esquecer. Lembrando. Quis pão de queijo e chocolate quente. E na chuva, quis corpo quente. Quis não me sentir só em meio a um bocado de gente. Quis não exigir tanto de mim nem de toda essa gente. Quis sol, quis verão, quis calor. Viajar pra longe. Quis estrelas no céu de meio dia. Quis Lua cheia ás 15hrs da tarde fria. Quis você por perto o tempo todo. Já não quero mais. Quis por um instante. Barba, cabelo molhado e sorriso bobo. E eu quis tanto em tão pouco tempo que já não lembro o tanto do meu querer nesse momento. Gigante. Vasto. Vazio. Sem resposta. Sozinho. Começa no impulso e termina no cansaço, no meu abraço. Quis o avesso. O contrário. Não quis rotina, nem calendário. Quis não querendo, quis te evitando, quis não te amando, quis por querer, querendo você sem motivo, sem culpa, sem amor, por loucura. E no fim eu volto a te esconder no fundo do meu armário. Sem questionário. Você é carta fora do baralho. E eu te quis por preguiça de não te querer. Como se essa mentira me sustentasse. Quis foi por saudade. Quis por vontade. Insanidade.

Elas e Ele. 13:34

Ele é do tipo que com mulher não tem problema, e o problema delas, acreditem: é ficar sem ele. A agenda do celular tem para todos os gostos, com colorações de cabelo, bocas, pernas e sobrancelhas diferentes. Todo dia sempre que faminto escolhe o prato do dia. O cardápio, por favor? E vai passando por Anas, Brunas, Camilas... Enquanto elas esperam pela ligação e por aquela voz enlouquecedoramente atraente, em um tom grave e calmo, com palavras perfeitamente soletradas, nem alto nem baixo, o suficiente para enlouquecer a da vez. A coitada que do outro lado da linha, morre, mordendo o travesseiro, concordando com “hunrrum” no final de cada frase sínica e cheia de tons de ironias pra lá de convincentes. É claro que ela vai topar, como todas. Ela sabe que é mais uma, mas ela topa, ela topou e vai sair com ele! E ela liga para as amigas e conta o que já não é novidade, escolhe roupa, alisa o cabelo, o gloss é da Victoria Secrets, o cheiro que ele já conhece, mas depois de tantos outros cheiros cabelos e ombros, ele de fato, desconhece. E quer saber? Pouco importa. Porque mesmo sabendo que ele vai chegar vestindo uma cara de pau que ela já conhece, sorrindo de um jeito que não convence, com aquele olhar meio tarado e com aquela barba mal feita... Ela topa! Ela sabe que ele não liga no dia seguinte, só uma semana depois. Ela sabe que ele controla o mundo inteiro com aquele charme irresistivelmente lindo. E ela sabe que ele a controla também. Ela sabe que naquele banco de couro surrado, sujo, imundo, grudou cabelos molhados com creme de pentear da pior marca do mercado, ah... ela sabe que o paladar dele vez ou outra não é dos melhores. E ela sorri, no seu faz de conta que tudo vai ser perfeito. Coitada. É aí que ela desmonta, e desaba, despenca em queda livre sem direito a Red Bull para criar asas e nem proteção de bungee jumping. E se esborracha no chão, como em inúmeras vezes. Espera dele um pouco mais do que essa coisa todo de escuro. E já com as idéias bem claras, percebe mesmo que não vale à pena esperar. E depois de acender a luz, ela volta pra casa, querendo um pouco mais dele, e ele querendo a próxima. Volta cheia, entalada por um sentimento de culpa, de queda e de saudade. E ele ainda com fome, cheio de vaidade. Ela não quer mais, jura ser a ultima vez que isso acontece. Jura para si mesma, pras amigas, jura pro espelho, pro travesseiro mordido, jura olhando a foto dele, jura apagando o número dele (que já sabe de cor), jura, jura, jura tudo em falso, jura tudo em tom de Não. Esperando o celular tocar, e ela sabe que ele liga que ele procura que ele convence... E ela sabe que topa. Topa cair de novo. Topa quebrar a cara. Topa não sentir nada. Ela topa e vai continuar topando... Mas até quando? Até o dia em que ela conseguir por fim nessa Refeiçao. Nao topar e ainda conseguir desejar Bom apetite, ou melhor ,morra de fome.

Sem contrato. 09:23



Acordar assustada por um barulho que não se sabe nem de onde vem é de tremer pernas, morder lábios e até arrepiar os cabelos. Um estouro, explosão. Bum! Cadê, cadê, cadê? Não fui eu, não fui eu. Onde? Cadê? E nada. Os ouvidos deviam lá está meio atordoados como eu, porém, não estavam loucos. Nem eu. Procurei pela fumaça e nada... Foi então que doeu e doeu forte. Não que tenha disparado em minha direção, mas a tal bomba acabara de explodir dentro de mim. Mas como? Aquele barulho todo, pra que, por quê? Meu coração já sem forças, não grita... Sussurra... Interroga e exclama. Quer entender, saber por quê... Ta faltando alguma coisa, eu estou inteira, mas ele não está completo. Eu tão segura e ele tão incerto. E me fez um questionário logo pela manha, depois de um susto daqueles e de um chá gelado pra reconstruir as idéias, a conversa foi longa e durou um dia inteiro. Antes, durante e após refeições. Na faculdade, no intervalo, academia, durante o sono da tarde. Eram perguntas feitas e refeitas, respondidas e debatidas. Dúvidas, contradições... Nossa! E pela noite um cansaço gigante me fez não encostar, mas desabar a cabeça no travesseiro que nem o pescoço agüentava mais, um cansaço que me arrancou o sono e o medo. E dessa vez quem explodiu com a bomba foi eu, que quase matou de susto meu coração. Coitado. - Então coração, sejamos sinceros um com o outro, esquece tudo o que te ensinei sobre amor. Esquece a melodia, a trilha sonora e todo aquele dengo. Ou melhor, deixa pra depois. Pra bem depois. Amor, de amar não dá. Sinto muito, sinto pelo senhor que anda meio cansado, mas conjugue o verbo gostar comigo agora, já... Eu gosto, gosto de gostar, gostar é mais fácil, cansa menos e não dá dor de barriga, nem frio na espinha, mas arrepia o corpo inteiro (essa é a melhor parte). Gostar é bom, garanto. Confia em mim. Esqueça a teoria da analise, e perca os freios até mesmo diante de uma situação de risco, acionamos o Air Bag e fica tudo bem. Combinado?
Silencio. Silencio absoluto. Peguei no sono, o sono me pegou. Não me lembro bem como, assim como não me lembro de ter lhe mostrado o contrato, a assinatura não consta, será que ta combinado mesmo? Será que ele topou? Entendeu e aceitou?
Ai coração... Deixa eu continuar minha, só minha, deixa, deixa. Eu gosto assim! Deixa desse jeito torto, louco, maluco. Eu gosto assim! Gosto sim. Inteira, intacta, absoluta e minha. Mesmo voltando pra casa querendo ser de alguém, mesmo indo dormir querendo amar alguém... Mesmo querendo braços em vez de travesseiros, mesmo querendo cheiros, pescoço, nuca e cabelo. Mesmo querendo mais, um pouco mais dessas coisas toda que é ser de alguém Por mais que tente, nunca me basto. Mas deixa assim, eu até que gosto assim. Gosto sim.